terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A palavra que não se usa

A palavra que não se usa, se perde. Como a boca torta pelo uso constante do cachimbo! Fazendo mais um esforço muito grande pra dar conta do programa Roda Viva, agora infelizmente apresentado pela jornalista-atriz-bailarina-cantora-apresentadora e ex-sogra do Gianechinni, Marília Gabriela, me vi bege diante do estúdio verde, onde uma casta de inquisidores amabilíssimos atiravam perguntas adoráveis ao Senador eleito Aécio Neves, carinhosamnete chamado nas rodas vivas das cúpulas conspiratórias de Minas pelo codinome mimoso de "Aecim do pó". Como falava o nosso ex-governador! Lindo. Grisalho. Retórico. Também, com tantos amigos na Roda. Pudera! O maior deles era mesmo a apresentadora. Esse ano mais cedo, em outro passado, ela o entrevistara no seu progama de frente com ela mesma do esSeBesTeira. Lá, um tanto antes das eleições e já afastado do Governo das Gerais, Aecim disse à moça loira que no segundo semestre de 2010 ele seria mais visto pelas praias de Saquarema que pelo Palácio. Que seria bermudão em vez de paletó. Ou seja, o papo tava ótimo! Uns fofos os dois! Bom, parece que o ex- da modelo pop star teve de interromper as ondas pra dar uma forcinha na campanha eleitoral de sua grande mão dieita, Anastasia. Deu certo. Venceram. O outro partido não conseguiu um centavo local para investimentos! Conspirações capitais dos árcades; cerceam e sufocam tudo! Tinha até candidato-laranja! Somos especialistas em tramóias e acordos de cavalheiros. É o jeitim minêro, aquele a comer pelas beiradas, sem jamais ir ao centro da coisa, pois seria parcialidade demais e o mineiro é amigo de todos. Engana-se o Brasil ao supor que o mineiro prefere a sombra do muro. Não! É no topo dele o seu sítio mais seguro! E falava o senador, e dizia da liberdade de imprensa em Minas, e que somos a tradição e que fazemos e acontecemos. E que Tiradentes isso e que Tancredo aquilo e que facilidade...! E que felicidade ... ! E quanta falsidade! Não viu que o rei estava nu?
Além de poder de retórica, é necessário ao contra-atacante a habilidade de conduzir essa retórica dentro de uma dada plataforma. Como desconstruí-lo? Um jovem roubou-lhe a palavra e o acusou ao vivo no Grande Teatro do Palácio das Artes. Questões ambientais seríssimas.
Já agora bem distante da juventude, outro dia no pograma Brasil das Gerais, o escritor Rubem Alves calou a moça Zampetti com essa interjeição pesadíssima e ao vivo: "Oh, minha filha, essa pergunta não pode mais ser feita!" A pegunta da boneca? "Ô gente, mas será que existe mesmo racismo no Brasil? Hein, Rubens?" Esfacelou-lhe a máscara de empírica. São tantos cínicos ao redor. Inquirem respostas já escrachadas ao ouvido público, só pra regurgitar uma dúvida que o mundo já digeriu. Aí, leitora, você se pergunta se é daí que emerge a nossa incapacidade de sermos um pouco mais dialógicos e um tanto menos agressivos. Não aprendemos a questionar o poder, porque esse acostumou-se a reprimir questionamentos verdadeiramente relativizantes. Marília e Aécim são tão amigos! Nunca poderia ela entrevistá-lo sem pisar em ovos! Nos Estados Unidos, chegam a ser constrangedoras as entrevistas de políticos, especialmente em períodos de eleição. São perguntas diretas e de extrema complexidade. Uma demanda de probidade linguística real para futuros gestores. Não que eles dêem conta do recado, mas a proposta editorial das mídias é não amaciar.  Evoluímos da pancadria senhorial nos vídeos em 70 e 80, para os marqueteiros idiotizantes de espectadores já muito emburrecidos em 2010. Ai, que me sinto tão mal com eles todos! É de fato sabido que do político brasileiro não se cobra a idoneidade civil que se cobra de qualquer outro funcionário público no execício de seu mandato. E se cobrarem, dá-lhe imunidade parlamentar! Vide Collors, Genuínos e Maluf absolvido ontem na Lei da Ficha Limpa. Então o século 19 volta e revolta mesmo, porque de fato nós próprios temos essa demanda servil aplicada nas metáforas da vida cotidiana. Somos assim também em outras esferas do nosso viver. Nos equilibramos entre o binarismo servir para comandar. E não admitimos ser relativizados. Os alunos querem pontos e trapaceam a professora, mesmo se não houver um carro prometido no natal. O cidadão quer as benemérides da democracia e chafurda com a polícia, com o ladrão, com o oficial corrupto da receita, com quem for...Como se a expectativa de se tornar senhora fizesse a escravidão ser suportável. E aí a idoneidade só vale pro outro. "Pra mim, não!" Só damos conta da expressão oral até o exercício da trapaça. Ali são inflexões de altíssima elaboração. Mas quando o assunto é a psique alterada pelo outro no espaço e no tempo, aí verifica-se a inabilidade de usar a palavra. Não damos mesmo conta da língua. Nos faltam palavras frequentemente. Pudera. No dia-a-dia  a prática do lirismo instantâneo é escassíssima. Não há silêncios. Só uma profusão de vazios autoritários ao redor!
Outro dia, a minha tia dizia estar chocada com a vizinha que corre o dia todo atrás do filho de 8 anos e a gritar-lhe o nome, "Charlim, Charlim", como uma louca. Aí eu lembrei-lhe que ela faz o mesmo com seu próprio filho e ela se irritou. No país do sol é quase sempre assim. Não se pode questionar o poder. Herança paternalizante que tudo controla e não tem de dar satisfações. É "o motorista que não quis dar seta", como revela o antropólogo Roberto da Mata em seu estudo sobre o comportamento agressivo do brasileiro no trânsito. Tem de fazer vista grossa, calar-se, fingir de mula. Será esse o significado do verbo emular. Emular-se? Essa necessidade comentada de refundação do PSDB perpassa o eixo que Aecim quer sustentar. Já viaja pelo Brasil se difundindo a tempos. Se lançando pra 2014, porque o tucanário paulistano anda mal das pernas, e parece que muito rejeitado pelo país, no seu controle. Por que certas bandas paulistanas não se dariam assim tão afavelmente ao moço? Como a Roda e o João Sayad e a Marília Gabriela e o seu cirquinho de amiguinhos? O que não falta em Minas é depoimento de jornalista castrado, reprimido, demitido, silenciado, e não raro, desaparecido. Questões políticas, policiais... Ser boneca é bem mais fácil. Minha inimicha Adriana que o diga. Liga o ar condicionado no máximo, no seu apartamentaço no alto do Buritis, onde o ar é realmente respirável, liga Sade bem alto e entorpecida de Dimple e fluoxetina, ela divaga como se estivesse num alpe suíço, daqueles que a gente só conhecia da embalagem de Magnum. Nem bala perdida do morro lhe cravaria a testa, que o ex-marido já blindou as paredes da choupana, que são de vidro multifocal. Assim a realidade lá fora vai mesmo virando outra. E só mesmo o pequerrucho de moral ainda não corrompida verá o rei nu? Há quem o veja, mas continua finigindo que a indumentária é suntuosíssima. Que saco. "Quando eu lhe encontrar vai ser pra enfiar a mão na sua cara, seu filho da puta", dizia outro dia o senador Collor a um jornalista que lhe quesstionava a integridade política. Qual? O que fará o expectador de posse da verdade? Pobre Minas. Mais minério para o mundo. Mais poder para as oligarquias industriais. Pobre natureza de Nova Lima, de Brumadinho. Para o povo, nada. Para os indianos, tudo. E os brancos do Brasil? Se avermelham ao passar o trem devagar, pela montanha, pelo vale? Não mesmo!
Ontem Marília entrevistava o José Júnio, de quem não é amiga, mas diz ser fã! Ali, a conversa foi menos doce. Vale muito a pena ver o programa, onde o entrevistado, angustiado e condecorado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, impera e compartilha da mesma angústia que aponta no peito de Marília. Muita saudade do Paulo Markun. Au Revoir! 
 

sábado, 27 de novembro de 2010

Qual é o pente que os penteia?

SIPAT - Novembro/ 2010

PAD - Profusão Aparentemente Desconexa

Mercado escola amola esfola esmola faca fuzil glote glúteo nádega grega pavor horror torpor aula professor velho amigo carteira frente trás traz frente leva busca rede baixa carrega conteúdo cruz Gólgota forma norma cama carma Xico Chica vermelha agredida sangue mediúnico único menina saia curta cinema entrada longa curta caminhada nada tudo aula grega horário formulário caneta cometa buceta gaveta abre fecha abre fecha vacila estica pinica entope preenche roupa armário espaço cavidade moda casa casar comida gaveta cobertor cobertura pamonha vergonha cegonha vôo bebê azul vacila anil  febril nascer dia branco noite prata preta desejo senzala escala social cultural anal gavetal dois depois amiga desbotada roupa louca asilo sanatório crematório capitólio pódium médium quórum assembléia geléia morango beatles besuntada penetrada escorregante juventude desplenitude atitude amiúde Daúde Ceará Alencar Mãe senador dor império  século fécula substância Peri Ceci Galdino Brasília inquisição Senhora Sanctis poesia talvez amiúde metade cheio saco garrafa torpor ardor otim erê obaluaê dendê azeite Bahia romano torna entorna nero cristão quente peladão lápis pica  azeite estica caneta marreta cabeça sangue vermelho inchaço grego platônico erecto operante aberração textual caricatural disforme gorda varizenta angínica mulher brasileira gostosa fogosa depiladinha pele queimada sol fogueira Joana amiga social cultural sepulcral inquisição morta verde acelga salada lírica satírica azul Canudos  Bahia tradição decapitação mortos verdes Hulks cinemas poemas cantigas antigas amigas mortas goelas amarelas pus cremes lemes lemes lemes tremes gemes padeces gozas esqueces lembre-se lembre-se lembre-se fórmulas colas provas escolas esmolas esfolas amolas escolas vão indo até que de súbito te aniquilam de vez.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Da Importância da Falta

Hoje foi o meu último dia lecionando no CEFET. Interessante como eu ando sendo seguido por esses engenheiros. Sem querer, comecei a trabalhar com eles a 13 anos atrás. Depois com alunos de engenharia e agora com os projetinhos de. Bem frescos! Fresquíssimos! Uns mimos! Não querem isso, não querem aquilo! Frivolidades mil! Prá eles, o Brasil! E a sua grande demanda de construção de máquinas, circuitos, plataformas, paredes, e d'outras virtuosidades da inteligentsia. Me seguem ogros? Ou será eu o ser ogro a segui-los? Não mesmo! Deve ser a tal providência divina a buscar o equilíbrio das coisas, enquanto o mundo não se explode de vez. Eles se matam tanto, esses engenheiros! A maioria é composta de umas boas pencas de bestas imbecilizadíssimas. Quase nunca me suportam. E agora? Se eu for lecionar Língua Inglesa no norte do Rio? O que  se encontra por lá, além de muita água e bobinas zunindo na sua cabeça todo o dia? 15 mil engenheiros brancos e machistas ao redor! Excitante? Nem um pouco! Mas eles têm muito dinheiro e pagam bem. Pelas aulas. O resto são quinze dias por mês de um inferno nirvanesco. É que a sala de aula, mesmo que se pague muito bem, já é pra mim uma penitenciária. Com seus carcereiros, presidiários e  chefes de facção. E ainda há toda a facção, com  seus membros e faccções oponentes, nas mesmas condições. Gosto mesmo é das rebeliões, mas na última que presenciei, eles se organizavam para a pré-estréia de Harry Potter. Terrorismo perde, né? Mas o mar é uma quebra boa do gelo transcorrido na montanha. Ressabiadíssimo desse pão de queijo, e muito a fim de sentir falta dele estou. Estar a fim de sentir falta de algo é muito bom e útil para se perceber o quão relevante esse mesmo algo é! Amo queijo, mas já não sinto falta dele faz muito tempo! Pudera, tá por aí.!Quero sentir! Falta de flâmulas, de cruzes nos altos, de amar isso aqui radicalmente, de mulher olhando pro chão. Quero sentir falta dessas igrejas insuportáveis em cada rua, chamando seus pecados e desejos a rogarem em vão, quero sentir falta do ar que não sopra no mar. Quero me enfastiar da maresia, fazer fumaça num fim de praia, me deixar levar pela correnteza, só e apenas. Divagar. Quero sentir falta do sino que toca na praça, e dos estranhos que eu saúdo pelas ruas todas as manhãs desse meu curral, dessa minha vilinha. Quero sentir falta de achar que a vida é só essa coisa bestinha!

domingo, 24 de outubro de 2010

Coisas de Homem

Quando o goleiro Bruno inquiriu aos repórteres qual deles ali naquela coletiva nunca havia agredido sua própia esposa, ou quando Felipe Melo na África do Sul comparou a bola Jabulani à uma Patricinha que não queria ser chutada, os heróis da falácia masculina brasileira não apenas meramente lançaram mão da assertiva que mais os aproxima da idéa de ser homem: o usufruto integral da violência calcada num certo (des)conhecimento construído a respeito da nossa vantagem, frente ao que for. Eles também assumiram a voz do grande coro dos contentes com o privilégio de genêro nos atribuído desde os áureos anos, pelas mães, sobretudo.
Um pouco de iconoclastia não faz mal a ninguém. Hoje pela manhã, ao ler A Folha Branca de São Paulo, verifiquei o ápice contido nessa desinformação geral, que eleva os homens à condição de bestas-feras. É por causa dessa vantagem estúpida frente às mulheres e a tudo, que a cidade amanhece com seus muros, postes e pontes fétidas depois de um dia de festa. Qual latrina! É por ela que crianças são todos os dias vitimizadas ou molestadas. O agente da pedofilia é quase sempre um homem! É essa pseudo-superioridade que leva mulheres a simular inferioridade. Para que o herói bem-sucedido e fraco se edifique como criatura-primeira! Direta das mãos do criador; colossal para o mundo. Síndrome de Adão! Como externar amor por uma mulher assim? Sobreposto? Lá do alto?
Luiz Bassuma (PV-BA) é o nome do deputado a repetir a ignomínia crassa do macho emburrecido pela dianteira fálica. E porque os evangélicos lideram mesmo a carnificina eleitoral acerca do aborto, o néscio verde propõe benefício mensal às mães estupradas até que a criança complete 18 anos. Entidades de defesa da mulher nomearam o projeto de bolsa-estupro. Veja bem, o deputado não concebe o estupro como algo a se evitar, pelo contrário, pareço ouvir dizê-lo: "é coisa de homem", ou seja, relaxe e goze, né? E se um filho a mais gera uma renda a mais no bolsa-escola, uma oferta generalizada de estupros pode figurar como um novo aquecimento nas economias locais. Não me surpreenderia que amanhã leia-se nos classificados de ofertas e serviços baianos: "Estupra-se a preços módicos!" Para esse dsserviço à nação, um poeminha de Oswald de Andrade para refletirmos sobre a rota equivocada pela incompreensão do rumo do vento.


Para dizerem milho, dizem mio
Para dizerem melhor, dizem mió
Para dizerem telha, dizem teia
Para dizerem telhado, dizem teiado
E lá se vão construindo telhados 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um Apólogo 1

Diferentemente da fábula, onde a personificação de seres mitológicos assume a cena, apólogo é esse tipo de narrativa em que objetos inanimados são caracterizados, aqui,  para compor uma breve metáfora do valor do trabalho humano. É uma experiência paralela, de notória sobriedade literária, projetada sobre o cotidiano das costureiras. E é em nome dessa sobriedade que agulha, linha, alfinete e tecido aparecem humanizados, nesse alinhavo magistral do bruxo do cosme velho. Machado aqui é de novo impiedoso com qualquer possibilidade edificante de esperança ou glória no futuro. Estamos todos fadados ao desejo genuinamente humano de escravizar. Patéticas e sedentas de entronamento, agulha e linha vão orgulhosas pelo pano adiante, sem cuidar da imutabilidade de seus papéis. A que vai adiante padece exatamente pela dianteira que parece ocupar.  É necessário que o subalterno permanesça galante em seu sub-posto; para que a democracia erga o brilho dos seus barões lampeões, adornados por suas baronesas a tiracolo, essas, decoradas pela melhor de todas as sedas. Essa é uma podução da MIRA AUDIOVISUAL, só pra dizer que "o desejo de se tornar senhora, faz a escravidão ser ainda mais  suportável." Boa Viagem

Um Apólogo 2

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poema de cor e de cores

Mamãe era pálida e ótima. Gostava muito de negros
Muito mais daquela parte rija,  se nessa forma lhe era alcançada
De resto, ficaram infortúnios étnicos de frívolos desejos
E d'outras bobas ânsias de moça branca cobiçada.


Vovó era ainda mió,  na vida não fiou com preto, não!
Bisneta fortuita d'uma índia bugra estuprada
Só se deu  assim premiada, a um belo tropeiro peão
De cujas madeixas esvoaçantes, ela mediu a textura em vão!

Mil raios, pedregondos, enxames e malquerências de dizer
"Se pro preto é só mal trato, então prá quê que eu fui nascer?!"
Arfeja Arminda agredida à espera no hospital
"Se era só pra ver a noite volver o dia em vasto mal!"

Angústias, pragas e tormentos de rebeliões ancestrais
"Vêde a vida, causa perdida, quantas farsas, quantos ais!"
Padece a poeta exilada em terras tristes e estrangeiras
"De nada valeu  o lirismo daquelas horas, já idas e agora derradeiras."

 

                                                                                                                                                 Tradução livre por bagatelalexical

VENDE-SE a bordo do Navio Bancel Island, na terça-feira próxima no Ashley-Ferry, um carregamento de 250 NEGROS saudáveis e em muito bom estado, recém-chegados da Costa de Barlovento & da Costa do Arroz - Já tomamos extremos cuidados, e assim o será, para que eles se mantenham imunes mesmo ao menor risco de contaminação por VARÍOLA. Nenhum barco esteve à bordo e qualquer outro meio de comunicação com a população de Charles-Town está proibido.
         
                                                                                                                   Austin, Laurens & Appleby.

Nota: Seguro que metade dos Negros acima tiveram Varíola no seu país de origem.                    

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Memórias da Professora Quase Deprimida (Pêquêdê)

Sem Aldol ou Rivotril, para não corromper as demandas da palavra, a Professora Quase Deprimida já sente dores. Ai dela! Míseros restos humanos! Vai-se indo Setembro ... E com a primavera o quê? Vida nova? Pêquêdê potencializa a beleza do fim do ano a fim de contrastá-la com a angústia Branca dos dias idos ao longo dele. Devagar, pobre Sancha - diz pra si - ainda há a Santa Maiúscula e o dia das crionças em Outubro; e o das professoras e o das bruxas no mesmo mês. Ainda há os mortos e a República sofrendo de sobre-peso em Novembro, até que em Dezembro Ele reNasça de novo, pobre pleonasmo, para matá-mo-lO novamente, mesóclise crucificante a cada Páscoa!
 
Não, ela não é depressiva ainda não! É leitora! Amante do ser humano bem-humorado. Onde está tal criatura? Nos confins da Terra? Sim, mas não todos! Apenas quase todos lá! Refugiados dos atuais PHS (Partido dos Homens Sisudos) e do PMD (Partido das Mocinhas Debeizinhas). A outra boa parte deles são alguns dos seus alunos e alunas maravilhosas de Informática 2A, mas parece que só ela acha assim. E ainda há a Luz Rara. Há Ágata Kaiser, pedra do Sul. Há Nina, há o teatro, há Ella Fitzgerald e Summertime. Há o Grande Sertão.

Grande desapontamento lhe dá o dia-a-dia das Escolas do Brasil! O dia todo ela a dar-se, triste ênclise! Dar-se a quê?

Informa-lhes a senhora superiora em educação que: os inspetores do Ministério da Educação e da Cultura, em sua inspeção já adiada, não virão ao seu Centro de Ensino Local (CEL) para averiguar o tipo de aula ministrada. "Eles não querem saber se vocês são bons professores ou não. Eles querem saber quantos mestres, doutores e pós-doutores há lotados na instituição", diz. Afinal, o que quer o MEC? Ai dela, míseros restos! Ai dela, que tem tudo a ver com o que pesquisa. Ai dela! É do cabelo crespo e
subalterna; amarronzada que não se emenda, "não te arranjas, menina das laranjas!?" Parece que estamos a repetir Coimbra - diz  pra si. Pêquêdê perguntou outro dia na loja de animais, mais conhecida como pet shop, à senhora proprietária de sotaque estranho, se essa era portuguesa. "De Coimbra", disse a velha felicíssima. "Ah, de cuja universidade voltavam deputados os rebentos da elite escravagista brasileira no século 19?" - inquiriu cínica. "Aí não sei, minha filha!" - radargüiu com a mão esquerda indiscutivelmente branca sobre o pacote de Pedigree - "esqueci a história. Mais alguma coisa?" Claro que não, claro que não havia mais nada. Mas porque aquela senhora existe, e porque quase todo o resto do mundo é mesmo desmemoriado, Pêquêdê  é professora e precisa se lembrar, como exaspera o filho ba biba-nazi em  Beleza Americana - "(...) and then I remember".
 
Sofre muito ao constatar a forte possibilidade de estar falando à futuros cadáveres. Num mundo apropriadíssimo aos homens brancos, ela se dirije e leciona orgânica principalmente para eles. Como um vírus ativo e operante! Há mulheres também, mas a maioria está a pensar como homens. A ocupar cargos tradicionalmente ocupados por homens, só pra cumprir a cota de correctude política com o gênero defasado.com. Eles continuam lá, na gestão 2000 e qualquer coisa, arfejantes, estriônicos, de garrucha na cintura, de capangas, de jagunços, de troncos à espera de chibatas, açoites e máscaras de folhas-de-flandres. Com suas calças compridas, seu falo pedestalizado no podium. Só que sangram uma vez por mês! E ainda fingem fragilidade; só pra ver o herói da glande flácida sobre ela crer que o seu amor rijo se estende além da medicação! A aglutinação da palavra mulher em inglês nos leva a um homem de útero: womb + man = woman. Forte, né?

As estatísticas não mentem. A realidade aprova uma das poucas verdades ainda lida nos jornais. Mata-se muito garoto entre os 15 e os 24 anos. Tá bom, ele é quase sempre negro, pobre, periférico, sabe-se! Mas não apenas. O que acontece? Pêquêdê observa esses garotos  logo ávidos para se livrarem da doçura da infância, muito antes da primeira pelagem púbica. Também os brancos e os d'outros matizes. Garotos! O papel de gênero sobre os homens é muito pesado! Não querer reprimir pode levá-lo a ser reprimido. Motor catalisador das verdades masculinas: Mãe, mulher. Antídoto: Possivelmente as mesmas!

Qual zebras desorientadas, sem qualquer exercício prático da sexualidade afetiva,  a Professora Quase Deprimida se estarrece, consigo e com todos à volta, ainda tão inaptos a amadurecer em vida. Dos partidos candidatos aos altos postos da democracia no país do sol, até o pobre professorzinho doutor em qualquer latrina, Eles todos parecem assistir estáticos à sua própia incapacidade de identificar as causas tão óbvias do seu mal-estar. A fim de provar o quão machos, machões e machistas eles são, vê-se garotos tão saudáveis, mas envoltos num processo constante de subjugação do outro. Um vocativo segregante daqui, um rompimento com a ética dali e zás: sou homem. A lei burlada ao longo do dia, mais um palavrão, uma cusparada, uma coçadinha a mais, um tapa em vez de um toque, a força somatizada, o suicídio por não saber chorar, por fraquejar, na prova de física, na hora H e zás, sou homem! Um risinho pelo canto, um sarcasmo mais apurado e disfarçado. "Não, eu não" - afirma o pederastinha diante da moça pedagoga. "Eu sô bacana" - chora convulsivo, o curralista torpe! "Cê intregô o trabái, gordo?" - pergunta o cristão ao colega com disfunção na glândula tireóide. "Não, viadim!"- responde obeso.

Tudo bem, né, alguém diria. Tudo bem, né! Garotos são assim. Não. Eles não são. E nem querem ser. Não querem entrar armados na sala e matar 6. 7 com a professora. 8 com ele mesmo! Mas entram. E isso não é particularidade de um coreano do estado da Virginia ou da jovem Von Richthofen. Não queriam revidar com coronhadas sangrentas na nuca do primeiro da turma. Mas revidam. Nem alvejar os pais, mas alvejam. Não queriam soltar bomba no banheiro dos meninos durante o intervalo da tarde. Mas soltam. Assassinam, coronham e horrorizam também porque assim seus pais, párocos, pastores, professores e mídias os trouxeram à fase adulta. É isso que esperam deles quando renunciam ao lirismo tão caro à vida cotidiana. Quando flertam tão diariamente com as mesmices convencionais. Quando a mãe zelosa perguntou ao filho de 7 anos se ele não era homem, por não ter revidado a agressão sofrida na Escola. Quando expulsaram a professora denuncinte do delinquente. Quando a juíza Sandra di Sanctis absolveu os 5 assassinos do índio Galdino, icinerado numa pirotecnia racial, num 19 de Abril, por 5 jovens brancos de Brasília, por ter sido confundido com um mendigo. Quando reelegeram Collor, estuprador da ditadura. Quando libertaram o de Pádua.

A malandragem mesmo é outra coisa: Malandro que é malandro mesmo morre aos 80. Porque sabe que malandragem é mera astúcia pra viver. Tão bobinha a classe média. Se arma e se blinda. E se esquece que dinheiro não compra tradição. Que a cultura do mundo não está a venda em drágeas ou nas vitrines dos shopping centers. Sim, talvez eles precisem todos de um outro plebiscito de armas. Dessa vez propondo a venda de fuzis AR-15 no Shopping Popular. Pelo menos saberão quantos saíram, porque eles vão sair, ou de lá, ou do outro mercado. O Negro. E aí talvez Eles entendam Nietzsche e aquele homem que irrompeu nos mercados gritando que haviam matado Deus. O narrador pergunta ao final quem O havia assassinado, e estarrecido constata o leitor: "fomos nós." "E acaso não serão as  Igrejas, os túmulos e os mausoléus do Senhor?" Crucificando-lhe a cada Páscoa. E acaso não serão Elas, as instituições democráticas parlatórias, as grandes deflagadores da falta de educação? Ai de todas Elas!

domingo, 5 de setembro de 2010

Sim, Eller sabe sim!

Não, Ele não sabe, não!

 
Unloved creature after hours on!

Não, ele não sabe, não!
Do peso estagnado no meu coração!
Da ínfima súplica rumo ao apelo incisivo de um não!
Depois de entorpecido e o corpo estirado ao chão
Chegou a meio passo de confessar a dor contida no seu afeto sem curvas
Retilíneo e sem direção
Desencontrado menos pelas desdobras da linha
E mais pelo horizonte infindo da pista meio morta
Da rua descalçada por onde tropecei mais que ele
Talvez por isso me tenho com os pés em carne mais viva
Cada gangrena mal-curada é a indiferença a um olhar que me cerceou
Uma mulher a menos para fingir que amei
Cada truque dele enganou bem o postulado a querer-lhe homem daquele jeito!
Mas e as marcas no seu pobre peito?
Bem fiz eu? Assassino de um-quase amor verdadeiro?
É que fiquei com a vã certeza de que não há mesmo caminhos. Faz-se o caminho ao andar!
Não fiz castelos com as pedras presas ao chão!
Acostumei os pés à dureza do impacto na travessia, então!
Não, ele não sabe, não!
De como o seu eu se estagnou no meu coração!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Os Insólitos Outros em mim ou Crônica Subversiva na Escola

O insólito outro de lá, como o outro de cá, ávidos por um fim - íntimos incógnitos às vezes viventes em mim - aparecem sempre muito mais vastos e plurais do que eu, do que os outros de mim, ou do que os outros residentes em um andarilho qualquer. De todos nós, nenhum sabe saber da víscera perecível e complexa, habitante insóbria da pessoa humana, essa menos sóbria ainda, ela mesma víscera. Convocada a questionar o totalitarismo dos educadores no poder, e sem reconhecer a emergência de alguma forma de anarquia na docência, a professora Medrosa dizia - não sei falar em público - mas falou. Tremeu, porém. Enrouqueceu encarada de ariranha pela coordenadora Taizinha. Seu olhar de subversão de súbito esfacelou - se. Precisamos ter mais respeito pelo outro - finda Medrosa fraca. Sem saber falar, plagia a mesma fala vil de Taizinha: reapropriações subalternas do léxico hierarquizado. Treme de novo, namora o rapaz Viciado em pó e danoninho. Perto da casa da minha avó mama um menino de oito anos. A minha tia falou que é fetiche da mãe. Mãe, o que é fetiche? Medrosa não sabe falar. As pessoas estão muito maltratando as outras - repete burra. Taizinha grunhe um traquejo feliz pela concomitância ganha - precisamos é respeitar! - apazigua cruel. Sentada sobre os louros da fama branca, a patotada diretórica não viu óbvias as suas demandas estriônicas, típicas de principados destronados de seus galeões, aquela velha sede de nomeada a infligir o peito dos neo-sinhozinhos sozinhos, parasitas financiados pelo fetiche compartilhado do pequeno poder, o de chegar a ser o grande! Mãe, o que é fetiche compartilhado? Acabada a farra, inspirou-se iniciar a contagem dos corpos. Há forte possibilidade de que OK se explique por Zero Killed, ou nenhum soldado morto, nenhuma baixa no front. E depois daquele presidente negro o quê, heim!? Viciado reclamou que o Bem-Dotado das Humanas só fala com ele se for pra pedir carona ou não sei que favor. Melhor não perder o amigo. O chupim parasitário de traslados é inútil, mas em Minas é assim: melhor não perder o amigo. Nunca ao centro, quase na borda. Por que reclamar com o mundo então? Pra que ele saiba que a democracia não é conivente com tratamentos de favor? Fechada num quarto cor-de-rosa e com chuva londrina a cair lá fora, a moça Medrosa sorri até a próxima trepada. Foi ontem a última. Ainda agora sorri Medrosa. Vê a chuva garoar leve na folha grossa e bem verdinha no canteiro ante ao muro de pedra amarela e acho que chora: contraste pastoril. Por trás de tudo conspirando, a serra protuberante e nua. Arcadismo velho e muito sedutor, a encerrar Marília bela na torre alta e muito débil, e naquela constante espera de. Sem o pó e a lactose adictivantes, Viciado não dá conta do recado de bancar o rebelde do rock inglês, fábula mais excitante para a moça Medrosa do que os cavaleiros loiros dos épicos de fada, base de toda moça, ou Medrosa, ou pobre, ou preta, ou culta, ou todas juntas e mais umas tantas. Mãe, tem fadas sem serem brancas? A Taizinha primeira é também a terceira. São duas pessoas numa. Respira e atende por eu e por ela. Só o pequeno rebento, segunda pessoa sufocada, se estarrece entre as outras duas. Vê, você é o amor da vida da mamãe - escreve Taizinha no rosto do seu menino fotografado sobre a mesa de chefa: retratos de família. Grande repouso esse que a coordenadora Taizinha encontrou nas efemeridades da professora Vitrola. De maternidades senis, as moças não se cunham à mesma fábula bucolesca de Medrosa, absorta em devaneios midiáticos, imensamente esfacelantes se apenas contrastados à precocidade daqueles surtos de gestar: os sonhos mágicos da infância idílica não se estendem ao labor das mães que balançam o berço na madrugada insone. É que a moderníssima mulher atuante no mercado do trabalho ainda demanda uma mucama nova, uma ama velha e outros suportes da modernidade, sem os quais o futuro não chega para todos
Na escola é assim: o nosso escopo segregativo é incisivo; forte, atuante, e vivo. Se tentar educar, dão-lhe açoite e máscara de folha-de-flandres! Toda roliça, Vitrola pálida de rosa e registro fônico estridente somatizou o legado romântico das pupilas virgens, de fichário contraposto ao peito semi-protuberante. No século 19, as moçoilas de família clara fingiam deixar cair sobre a poça preta, o lenço branco de borda fina e muito bem-acabada, para deleite dos lisboetas tupiniquins. Ainda não eram os calcanhares de burgesitas salientes na porta dos teatros do fim do século, nem os decotes high-techs de colos leitosos, sem cuja imagem, ficariam pobres os nossos folhetins eletrônicos, a nossa ficção de altíssima tecnologia. 
Presa ao acaucasianamento da beleza, Vitrola, estrela fosca, fixou-se ao príncipe; e à espreita do som das esporas, longo estribilho a gingar direto da infância de meninas bobas, não ouviu entre uma aula e outra, o entrecortado laminoso das tesouradas do jardineiro Petúnio. Ali lindo de cócoras e macacão cinza-terra frente à classe da zebruta, ali igualmente à milhas étnicas do alvíssimo cavaleiro inglês, todavia, muito saboroso de pigmentar a prole já encaminhada da moça de pink: maravilhas inter-raciais! Como se fora a força imputada pelo seu tronco tão rijo sobre a armadura estável de membros largos e frenéticos contra as carnes leitosas da moça Vitrola, as mãos ébano de Petúnio defloram os ipês semi-mortos. E as tesouras em melodia parecem preceder a floragem mais madura e perfumosa das árvores muito troncudas, rumando a um céu raro, de um azul nunca visto em novembros sempre tão chuvosos, naquela velha vilinha curralinista.                           


Hoje o Mundo Amanheceu Melhor

E foi porque após tanto dizer pra quem nem tanto assim queria ouvir,
Que Emerson Carvalho finalmente criou seu blog para suprir a demanda lírica
De nós todos quase submersos pela metáfora vulgarizadíssima do dia-a-dia. Aqui vamos já de "Os Insólito outros ..." e "Não, ele não sabe não". Abaixo já segue o link para "Pequenas Distrações" do escritor paulistano Gregório Bacic. "Porque as grades do condomínio são pra trazer proteção, mas também trazem a dúvida se é você quem está nessa prisão"