O insólito outro de lá, como o outro de cá, ávidos por um fim - íntimos incógnitos às vezes viventes em mim - aparecem sempre muito mais vastos e plurais do que eu, do que os outros de mim, ou do que os outros residentes em um andarilho qualquer. De todos nós, nenhum sabe saber da víscera perecível e complexa, habitante insóbria da pessoa humana, essa menos sóbria ainda, ela mesma víscera. Convocada a questionar o totalitarismo dos educadores no poder, e sem reconhecer a emergência de alguma forma de anarquia na docência, a professora Medrosa dizia - não sei falar em público - mas falou. Tremeu, porém. Enrouqueceu encarada de ariranha pela coordenadora Taizinha. Seu olhar de subversão de súbito esfacelou - se. Precisamos ter mais respeito pelo outro - finda Medrosa fraca. Sem saber falar, plagia a mesma fala vil de Taizinha: reapropriações subalternas do léxico hierarquizado. Treme de novo, namora o rapaz Viciado em pó e danoninho. Perto da casa da minha avó mama um menino de oito anos. A minha tia falou que é fetiche da mãe. Mãe, o que é fetiche? Medrosa não sabe falar. As pessoas estão muito maltratando as outras - repete burra. Taizinha grunhe um traquejo feliz pela concomitância ganha - precisamos é respeitar! - apazigua cruel. Sentada sobre os louros da fama branca, a patotada diretórica não viu óbvias as suas demandas estriônicas, típicas de principados destronados de seus galeões, aquela velha sede de nomeada a infligir o peito dos neo-sinhozinhos sozinhos, parasitas financiados pelo fetiche compartilhado do pequeno poder, o de chegar a ser o grande! Mãe, o que é fetiche compartilhado? Acabada a farra, inspirou-se iniciar a contagem dos corpos. Há forte possibilidade de que OK se explique por Zero Killed, ou nenhum soldado morto, nenhuma baixa no front. E depois daquele presidente negro o quê, heim!? Viciado reclamou que o Bem-Dotado das Humanas só fala com ele se for pra pedir carona ou não sei que favor. Melhor não perder o amigo. O chupim parasitário de traslados é inútil, mas em Minas é assim: melhor não perder o amigo. Nunca ao centro, quase na borda. Por que reclamar com o mundo então? Pra que ele saiba que a democracia não é conivente com tratamentos de favor? Fechada num quarto cor-de-rosa e com chuva londrina a cair lá fora, a moça Medrosa sorri até a próxima trepada. Foi ontem a última. Ainda agora sorri Medrosa. Vê a chuva garoar leve na folha grossa e bem verdinha no canteiro ante ao muro de pedra amarela e acho que chora: contraste pastoril. Por trás de tudo conspirando, a serra protuberante e nua. Arcadismo velho e muito sedutor, a encerrar Marília bela na torre alta e muito débil, e naquela constante espera de. Sem o pó e a lactose adictivantes, Viciado não dá conta do recado de bancar o rebelde do rock inglês, fábula mais excitante para a moça Medrosa do que os cavaleiros loiros dos épicos de fada, base de toda moça, ou Medrosa, ou pobre, ou preta, ou culta, ou todas juntas e mais umas tantas. Mãe, tem fadas sem serem brancas? A Taizinha primeira é também a terceira. São duas pessoas numa. Respira e atende por eu e por ela. Só o pequeno rebento, segunda pessoa sufocada, se estarrece entre as outras duas. Vê, você é o amor da vida da mamãe - escreve Taizinha no rosto do seu menino fotografado sobre a mesa de chefa: retratos de família. Grande repouso esse que a coordenadora Taizinha encontrou nas efemeridades da professora Vitrola. De maternidades senis, as moças não se cunham à mesma fábula bucolesca de Medrosa, absorta em devaneios midiáticos, imensamente esfacelantes se apenas contrastados à precocidade daqueles surtos de gestar: os sonhos mágicos da infância idílica não se estendem ao labor das mães que balançam o berço na madrugada insone. É que a moderníssima mulher atuante no mercado do trabalho ainda demanda uma mucama nova, uma ama velha e outros suportes da modernidade, sem os quais o futuro não chega para todos.
Na escola é assim: o nosso escopo segregativo é incisivo; forte, atuante, e vivo. Se tentar educar, dão-lhe açoite e máscara de folha-de-flandres! Toda roliça, Vitrola pálida de rosa e registro fônico estridente somatizou o legado romântico das pupilas virgens, de fichário contraposto ao peito semi-protuberante. No século 19, as moçoilas de família clara fingiam deixar cair sobre a poça preta, o lenço branco de borda fina e muito bem-acabada, para deleite dos lisboetas tupiniquins. Ainda não eram os calcanhares de burgesitas salientes na porta dos teatros do fim do século, nem os decotes high-techs de colos leitosos, sem cuja imagem, ficariam pobres os nossos folhetins eletrônicos, a nossa ficção de altíssima tecnologia.
Presa ao acaucasianamento da beleza, Vitrola, estrela fosca, fixou-se ao príncipe; e à espreita do som das esporas, longo estribilho a gingar direto da infância de meninas bobas, não ouviu entre uma aula e outra, o entrecortado laminoso das tesouradas do jardineiro Petúnio. Ali lindo de cócoras e macacão cinza-terra frente à classe da zebruta, ali igualmente à milhas étnicas do alvíssimo cavaleiro inglês, todavia, muito saboroso de pigmentar a prole já encaminhada da moça de pink: maravilhas inter-raciais! Como se fora a força imputada pelo seu tronco tão rijo sobre a armadura estável de membros largos e frenéticos contra as carnes leitosas da moça Vitrola, as mãos ébano de Petúnio defloram os ipês semi-mortos. E as tesouras em melodia parecem preceder a floragem mais madura e perfumosa das árvores muito troncudas, rumando a um céu raro, de um azul nunca visto em novembros sempre tão chuvosos, naquela velha vilinha curralinista.
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