Escritos Que Não Digerem ou Tangíveis (Especialmente para o matrimônio de Perla e Menezes)

Não foi assim como o olhar pueril de dois adolescentes a se cortejarem imensamente pela primeira vez, bastante seguros da presença fortuita do amor. Tampouco P&M duvidaram do brilho que lhes invadia os olhos pouco a pouco, ou das duas vozes alteradas pelo afeto novo, trêmulas pelo desejo de estarem de novo, braços envoltos assim, em constantes câmbios de ternura e respeito. Era o amor que chegava, enfim? Daquele tipo que só se vê nas novelas e nos folhetins? Não! Era mais real, mais cheio de substância e de verdade, querendo convidá-los para o exercício da lealdade, essa prática de nutrição diária, e de muito fácil execução, se tangível é o amor.

Mas o que é o amor, esse mistério irresoluto, diante dos anos por vir? O que importará o amor para a vida cotidiana de P&M? Ora, se é exatamente do dia-a-dia que se nutre o amor dos casais, é preciso cuidado com cada um desses dias, para a renovação diária dos enlaçamentos e das promessas feitas nesta noite tão bela, tão à espera de outras noites, de outros dias que virão; plenos e fartos de alegria e de satisfação. Não a alegria desmedida das paixões vorazes, mas aquela ponderação frutífera, companheira do amor libertário, demanda primeira de toda afeição verdadeira. P&M se amam livremente. E a liberdade do seu amor é o que melhor conduzira’ essas duas almas enamoradas ao altruísmo dos que se querem muitíssimo. Sem dar espaços para o amor do tipo egoísta, dos que apenas se possuem como se fossem artefatos num acervo de aquisições, impalpáveis, sem nunca reconhecer o quão tangível pode ser o amor.

Primeiro foram as turbulências juvenis dela, a busca por identificações próprias, a fé, o mundo, o outro eu de si, e lá estavam as mesmas lacunas entre gerações! Acima de tudo, estavam os postulados típicos da educação de meninas: lisura, mesura e compostura. Nessa lacuna, Perla se esbarrou em Menezes.

Ele, pai afetuoso, igualmente foi um jovem não menos sedento de liberdade, logo compartilhada com a presença iluminadíssima de Gabriel. Junto a eles, os postulados típicos da educação de meninos: força, temperança, autocontrole. E por absoluto acaso, Menezes se esbarrou em Perla.

O primeiro encontro foi casual, inesperado, aparentemente despretensioso, mas quase tudo já estava lá. A vila a vê-los passar todos os dias, para a vida do dia-a-dia. Os amigos em comum, um aceno ao pé da escada, um sorriso a mais, outros olhares lânguidos, os encontros na universidade e de repente boom; era como se um anjo lançasse bem lá de cima feixes de uma luz muito prateada e resplandecente. Gabriel? Ou o mero e incontrolável desejo de simplesmente estar? Estar por quanto tempo? Nesses tempos de imediatismos românticos, de amores descartáveis? Eles não sabem dizer! Se os motivos do fim devem ser a morte ou o não-querer. O eterno, já dizia o poetinha, é só enquanto dura. E essa lealdade, pela qual P&M se comprometem a lutar em cada um dos seus dias vindouros, é mais um desejo saboroso dos que se querem livremente, do que o exercício árduo dos que apenas cumprem os protocolos do amor. Eles não têm formula! Possuem, entretanto, os componentes imprescindíveis da boa relação a dois. Querer mútuo, respeito pelo outro, liberdade para o amor, cuidado com o lar, paciência para ouvir, ponderação para falar, amar, amar, sem nunca lutar para evitar a inevitável dor do tangível amor.

Porque P&M já reconheceram que é cega aquela persistência com a qual homem e mulher acreditam poder impor um desejo particular sobre o ser amado; e por outro lado, o amor é exercício e paciência. Passar os anos juntos vos fará amar ainda melhor, à medida que souberem ceder aos impulsos do outro, enquanto cortejarem cada um, essa tal individualidade do outro. Mas o outro nunca é apenas o céu! É também o seu oposto. Sofre, padece fica alegre, fica triste, comemora a vida e depois volta a padecer, fica doente, carente, demente e a demandar cuidados, médicos, psiquiátricos e financeiros. Aborrece e causa aborrecimento. Testa a veracidade do amor, do querer. Tem vertigem. Cai da escada, quebra a perna, esfola, padece, desfalece. Como amar assim? Como amar se a beleza dos dias for de súbito arrebatada ao chão? Se o outro também e’ imperfeição? E por acaso o amor so’ ama o que e’ perfeito, e’? Ou sera’ possível amar o imperfeito tanto que perfeito se torne?! E a doença saúde se torne! E a tristeza alegria se torne! E que finalmente possam sempre reflorescer os dias a brilhar de paz e de prata. De plenitude e de beleza. De saúde e de respeito. De afeto intenso e de liberdade criadora. Para existires mais fortuitos. Verdinhos. De paz física e espiritual. Compartilhada. Por dois. Por todos os frutos que vierem depois. Depois que o vosso amor atingir as máximas benções. Dos idosos a amarem no outro, o cheiro do tempo que passou. Nós vos desejamos toda a felicidade do mundo! Nesta noite. E por muitíssimo tempo depois dela.