domingo, 24 de outubro de 2010

Coisas de Homem

Quando o goleiro Bruno inquiriu aos repórteres qual deles ali naquela coletiva nunca havia agredido sua própia esposa, ou quando Felipe Melo na África do Sul comparou a bola Jabulani à uma Patricinha que não queria ser chutada, os heróis da falácia masculina brasileira não apenas meramente lançaram mão da assertiva que mais os aproxima da idéa de ser homem: o usufruto integral da violência calcada num certo (des)conhecimento construído a respeito da nossa vantagem, frente ao que for. Eles também assumiram a voz do grande coro dos contentes com o privilégio de genêro nos atribuído desde os áureos anos, pelas mães, sobretudo.
Um pouco de iconoclastia não faz mal a ninguém. Hoje pela manhã, ao ler A Folha Branca de São Paulo, verifiquei o ápice contido nessa desinformação geral, que eleva os homens à condição de bestas-feras. É por causa dessa vantagem estúpida frente às mulheres e a tudo, que a cidade amanhece com seus muros, postes e pontes fétidas depois de um dia de festa. Qual latrina! É por ela que crianças são todos os dias vitimizadas ou molestadas. O agente da pedofilia é quase sempre um homem! É essa pseudo-superioridade que leva mulheres a simular inferioridade. Para que o herói bem-sucedido e fraco se edifique como criatura-primeira! Direta das mãos do criador; colossal para o mundo. Síndrome de Adão! Como externar amor por uma mulher assim? Sobreposto? Lá do alto?
Luiz Bassuma (PV-BA) é o nome do deputado a repetir a ignomínia crassa do macho emburrecido pela dianteira fálica. E porque os evangélicos lideram mesmo a carnificina eleitoral acerca do aborto, o néscio verde propõe benefício mensal às mães estupradas até que a criança complete 18 anos. Entidades de defesa da mulher nomearam o projeto de bolsa-estupro. Veja bem, o deputado não concebe o estupro como algo a se evitar, pelo contrário, pareço ouvir dizê-lo: "é coisa de homem", ou seja, relaxe e goze, né? E se um filho a mais gera uma renda a mais no bolsa-escola, uma oferta generalizada de estupros pode figurar como um novo aquecimento nas economias locais. Não me surpreenderia que amanhã leia-se nos classificados de ofertas e serviços baianos: "Estupra-se a preços módicos!" Para esse dsserviço à nação, um poeminha de Oswald de Andrade para refletirmos sobre a rota equivocada pela incompreensão do rumo do vento.


Para dizerem milho, dizem mio
Para dizerem melhor, dizem mió
Para dizerem telha, dizem teia
Para dizerem telhado, dizem teiado
E lá se vão construindo telhados 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um Apólogo 1

Diferentemente da fábula, onde a personificação de seres mitológicos assume a cena, apólogo é esse tipo de narrativa em que objetos inanimados são caracterizados, aqui,  para compor uma breve metáfora do valor do trabalho humano. É uma experiência paralela, de notória sobriedade literária, projetada sobre o cotidiano das costureiras. E é em nome dessa sobriedade que agulha, linha, alfinete e tecido aparecem humanizados, nesse alinhavo magistral do bruxo do cosme velho. Machado aqui é de novo impiedoso com qualquer possibilidade edificante de esperança ou glória no futuro. Estamos todos fadados ao desejo genuinamente humano de escravizar. Patéticas e sedentas de entronamento, agulha e linha vão orgulhosas pelo pano adiante, sem cuidar da imutabilidade de seus papéis. A que vai adiante padece exatamente pela dianteira que parece ocupar.  É necessário que o subalterno permanesça galante em seu sub-posto; para que a democracia erga o brilho dos seus barões lampeões, adornados por suas baronesas a tiracolo, essas, decoradas pela melhor de todas as sedas. Essa é uma podução da MIRA AUDIOVISUAL, só pra dizer que "o desejo de se tornar senhora, faz a escravidão ser ainda mais  suportável." Boa Viagem

Um Apólogo 2

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poema de cor e de cores

Mamãe era pálida e ótima. Gostava muito de negros
Muito mais daquela parte rija,  se nessa forma lhe era alcançada
De resto, ficaram infortúnios étnicos de frívolos desejos
E d'outras bobas ânsias de moça branca cobiçada.


Vovó era ainda mió,  na vida não fiou com preto, não!
Bisneta fortuita d'uma índia bugra estuprada
Só se deu  assim premiada, a um belo tropeiro peão
De cujas madeixas esvoaçantes, ela mediu a textura em vão!

Mil raios, pedregondos, enxames e malquerências de dizer
"Se pro preto é só mal trato, então prá quê que eu fui nascer?!"
Arfeja Arminda agredida à espera no hospital
"Se era só pra ver a noite volver o dia em vasto mal!"

Angústias, pragas e tormentos de rebeliões ancestrais
"Vêde a vida, causa perdida, quantas farsas, quantos ais!"
Padece a poeta exilada em terras tristes e estrangeiras
"De nada valeu  o lirismo daquelas horas, já idas e agora derradeiras."

 

                                                                                                                                                 Tradução livre por bagatelalexical

VENDE-SE a bordo do Navio Bancel Island, na terça-feira próxima no Ashley-Ferry, um carregamento de 250 NEGROS saudáveis e em muito bom estado, recém-chegados da Costa de Barlovento & da Costa do Arroz - Já tomamos extremos cuidados, e assim o será, para que eles se mantenham imunes mesmo ao menor risco de contaminação por VARÍOLA. Nenhum barco esteve à bordo e qualquer outro meio de comunicação com a população de Charles-Town está proibido.
         
                                                                                                                   Austin, Laurens & Appleby.

Nota: Seguro que metade dos Negros acima tiveram Varíola no seu país de origem.