(Para néo-ibéricos chorosos e saudosistas)
Obviamente
desprezamos qualquer forma de beleza no nosso discurso, ainda precário,
de oratória esvaziada. E a mesma prosódia sem nenhum lirismo parece
querer se repetir a todo instante, e se repete. Obviamente ainda não nos
apropriamos dos termos já produzidos pelas universidades do Brasil e do
mundo, pela vastíssima reunião de valores e decretos publicados pelas
novas expressões dos gêneros, dos múltiplos gêneros, que de fato não são
expressões nada novas, pelo contrario, são muito velhas, decrépitas,
mais que por demais. Parecemos querer estar sempre nas retaguardas e
nunca nas vanguardas. Insistindo em sintagmas e verbetes
discriminatórios, presos ao imaginário coletivo das metáforas perversas
do nosso cotidiano repleto de equívocos e preconceitos herdados do
feudo, da casa grande, do privilégio branco, da burrice oitocentista da
maioria dos deputados em Brasília: “Ô viadim!” “Sua gorda!” “Colé,
Neguim?” Obviamente fomos educados, e tal educamos, para o clareamento,
para fingir que somos inclusivos e politicamente corretos, já que
“infelizmente” não podemos mais odiar os negros, nem ao menos
amordaçá-los aos troncos e marcar-lhes com ferro e fogo a marca da
posse: BC, B de Brás, C de Cubas. E não sabemos mesmo do que se trata a
alteridade. O outro. O corpo do outro. O desejo do outro. O desejo
irrevogável de o outro amar aquilo que deve e quer e precisa ser amado.
“Não, senhora, muito obrigado, eu prefiro ele.” É mais sincero,
é mais verdadeiro para com uma mulher, o homem que amando outro homem,
deixa a pobre livre para quem de fato possa desejá-la. Temos sexualizado
a cultura todos os dias. Já é chegada a hora de, finalmente,
culturalizarmos o sexo, a fim de percebermos a força da misoginia, da
homofobia, do bullying sexual se manifestando diariamente pelos
corredores silenciosos das Escolas do Brasil. Realengo é aqui e há
muitos Wellingtons Menezes por aí. Precisamos todos nos esforçar para
chegarmos antes dos tiros em Columbine. Porque eles virão, por certo!
O
papel de gênero nos é um fardo muito pesado. Homens educados para
reprimir. Mulheres para simular a sua inferioridade diante deles. Todos
sabem: Há tantos homens em exercício efetivo da homo-erotização. Bem
casados com suas esposas honestas. Pais de famílias distintas e de
posses. E exímios frequentadores dos guetos sujos, das esquinas
noturnas, das saunas e d’outras casas de prazer marginal. Todos sabem.
Há a música como testemunha, e há o cinema e a literatura. Há o teatro e
todas as ciências naturais. E há também as vanguardas psicanalíticas em
prol da pluralidade das identificações, palavra mais contemplativa do que do que a palavra identidades,
já que esta é muito fixa, muito estática, e aquela outra mais móvel,
mais mutável, mais maleável. Já não somos mais um único EU, e essa
mutabilidade é o que nos faz. Somos a mudança que fazemos em nós.
Ninguém é mais apenas isso ou aquilo: Homem, filha, mulher, pai de
família. Ao contrario, o nosso EU-existencial, solitário dentro de nós, é
o tempo todo convidado e compelido a ser muitos EUS. Mas há quem se
maquie de um único só! Obviamente já não soa bem dizer que aquele-negro
fedido-não-sei-o-quê, mas dizê-lo já teve respaldo científico.
Obviamente, não soa bem se referir a quem quer que seja como “aquele
veadinho ali”, mas insistimos na homofobia, talvez por não ter se
passado mais de um século, como se passou desde 1888 e a lei Áurea. É
possível que não baste dois séculos desde agora para romper de vez com o
surto auto-androfílico, ou a exacerbação total da masculinidade, esse
mal responsável pelo assassinato diário de mulheres, esse desejo de ser o
mais rude possível e o mínimo suave, apenas o necessário, na medida da
hipocrisia, da desfaçatez social, para não parecer muito pesado, e se
matar se for preciso, e não perder nunca aquele jeitão tosco, ogro,
ríspido, operando na síndrome de unicórnio, de membro ereto, a frente do
mundo, o filho do dono, candidato ao câncer de próstata, já que o medo
urológico do médico de longo fura-bolo traz ao machista, antes da
lucidez, a metástase. E dói. E muito.
Pudera! Nem mesmo diante de
tanta obviedade a nossa tragédia diária é perceptível! Pudera!
Frustramos expectativas todos os dias! Pudera! Nosso sonho pervertido
era mesmo fazer da menina de rosa, da princesinha alegre, a rainha do
mundo, adornada de pedras de Serra Pelada! Pudera! Nosso sonho romântico
de fidelidade fracassa todo dia! Não queremos a democracia. Não
rejuvenescemos, nem rompemos com o nosso passado romântico e idealizado.
Ao contrário, revitalizamos o horror e, bastante selvagens, publicamos o
ódio contra qualquer expressão adversa das iconoclastias brancas,
cristãs e hetero-orientadas. De olhos vendados e mãos em cartaz, ainda
não vimos que “o presente, a mente, o corpo é diferente e o passado é
uma roupa que não nos serve mais.”
