terça-feira, 3 de julho de 2012

Obviamente, pudera!


                                                                       (Para néo-ibéricos chorosos e saudosistas)


Obviamente desprezamos qualquer forma de beleza no nosso discurso, ainda precário, de oratória esvaziada. E a mesma prosódia sem nenhum lirismo parece querer se repetir a todo instante, e se repete. Obviamente ainda não nos apropriamos dos termos já produzidos pelas universidades do Brasil e do mundo, pela vastíssima reunião de valores e decretos publicados pelas novas expressões dos gêneros, dos múltiplos gêneros, que de fato não são expressões nada novas, pelo contrario, são muito velhas, decrépitas, mais que por demais. Parecemos querer estar sempre nas retaguardas e nunca nas vanguardas. Insistindo em sintagmas e verbetes discriminatórios, presos ao imaginário coletivo das metáforas perversas do nosso cotidiano repleto de equívocos e preconceitos herdados do feudo, da casa grande, do privilégio branco, da burrice oitocentista da maioria dos deputados em Brasília: “Ô viadim!” “Sua gorda!” “Colé, Neguim?” Obviamente fomos educados, e tal educamos, para o clareamento, para fingir que somos inclusivos e politicamente corretos, já que “infelizmente” não podemos mais odiar os negros, nem ao menos amordaçá-los aos troncos e marcar-lhes com ferro e fogo a marca da posse: BC, B de Brás, C de Cubas. E não sabemos mesmo do que se trata a alteridade. O outro. O corpo do outro. O desejo do outro. O desejo irrevogável de o outro amar aquilo que deve e quer e precisa ser amado. “Não, senhora, muito obrigado, eu prefiro ele.” É mais sincero, é mais verdadeiro para com uma mulher, o homem que amando outro homem, deixa a pobre livre para quem de fato possa desejá-la. Temos sexualizado a cultura todos os dias. Já é chegada a hora de, finalmente, culturalizarmos o sexo, a fim de percebermos a força da misoginia, da homofobia, do bullying sexual se manifestando diariamente pelos corredores silenciosos das Escolas do Brasil. Realengo é aqui e há muitos Wellingtons Menezes por aí. Precisamos todos nos esforçar para chegarmos antes dos tiros em Columbine. Porque eles virão, por certo!
O papel de gênero nos é um fardo muito pesado. Homens educados para reprimir. Mulheres para simular a sua inferioridade diante deles.  Todos sabem: Há tantos homens em exercício efetivo da homo-erotização. Bem casados com suas esposas honestas. Pais de famílias distintas e de posses. E exímios frequentadores dos guetos sujos, das esquinas noturnas, das saunas e d’outras casas de prazer marginal. Todos sabem. Há a música como testemunha, e há o cinema e a literatura. Há o teatro e todas as ciências naturais. E há também as vanguardas psicanalíticas em prol da pluralidade das identificações, palavra mais contemplativa do que do que a palavra identidades, já que esta é muito fixa, muito estática, e aquela outra mais móvel, mais mutável, mais maleável. Já não somos mais um único EU, e essa mutabilidade é o que nos faz. Somos a mudança que fazemos em nós. Ninguém é mais apenas isso ou aquilo: Homem, filha, mulher, pai de família. Ao contrario, o nosso EU-existencial, solitário dentro de nós, é o tempo todo convidado e compelido a ser muitos EUS. Mas há quem se maquie de um único só! Obviamente já não soa bem dizer que aquele-negro fedido-não-sei-o-quê, mas dizê-lo já teve respaldo científico. Obviamente, não soa bem se referir a quem quer que seja como “aquele veadinho ali”, mas insistimos na homofobia, talvez por não ter se passado mais de um século, como se passou desde 1888 e a lei Áurea. É possível que não baste dois séculos desde agora para romper de vez com o surto auto-androfílico, ou a exacerbação total da masculinidade, esse mal responsável pelo assassinato diário de mulheres, esse desejo de ser o mais rude possível e o mínimo suave, apenas o necessário, na medida da hipocrisia, da desfaçatez social, para não parecer muito pesado, e se matar se for preciso, e não perder nunca aquele jeitão tosco, ogro, ríspido, operando na síndrome de unicórnio, de membro ereto, a frente do mundo, o filho do dono, candidato ao câncer de próstata, já que o medo urológico do médico de longo fura-bolo traz ao machista, antes da lucidez, a metástase.  E dói. E muito.
Pudera! Nem mesmo diante de tanta obviedade a nossa tragédia diária é perceptível! Pudera! Frustramos expectativas todos os dias! Pudera! Nosso sonho pervertido era mesmo fazer da menina de rosa, da princesinha alegre, a rainha do mundo, adornada de pedras de Serra Pelada! Pudera! Nosso sonho romântico de fidelidade fracassa todo dia! Não queremos a democracia. Não rejuvenescemos, nem rompemos com o nosso passado romântico e idealizado. Ao contrário, revitalizamos o horror e, bastante selvagens, publicamos o ódio contra qualquer expressão adversa das iconoclastias brancas, cristãs e hetero-orientadas. De olhos vendados e mãos em cartaz, ainda não vimos que “o presente, a mente, o corpo é diferente e o passado é uma roupa que não nos serve mais.”