terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A palavra que não se usa

A palavra que não se usa, se perde. Como a boca torta pelo uso constante do cachimbo! Fazendo mais um esforço muito grande pra dar conta do programa Roda Viva, agora infelizmente apresentado pela jornalista-atriz-bailarina-cantora-apresentadora e ex-sogra do Gianechinni, Marília Gabriela, me vi bege diante do estúdio verde, onde uma casta de inquisidores amabilíssimos atiravam perguntas adoráveis ao Senador eleito Aécio Neves, carinhosamnete chamado nas rodas vivas das cúpulas conspiratórias de Minas pelo codinome mimoso de "Aecim do pó". Como falava o nosso ex-governador! Lindo. Grisalho. Retórico. Também, com tantos amigos na Roda. Pudera! O maior deles era mesmo a apresentadora. Esse ano mais cedo, em outro passado, ela o entrevistara no seu progama de frente com ela mesma do esSeBesTeira. Lá, um tanto antes das eleições e já afastado do Governo das Gerais, Aecim disse à moça loira que no segundo semestre de 2010 ele seria mais visto pelas praias de Saquarema que pelo Palácio. Que seria bermudão em vez de paletó. Ou seja, o papo tava ótimo! Uns fofos os dois! Bom, parece que o ex- da modelo pop star teve de interromper as ondas pra dar uma forcinha na campanha eleitoral de sua grande mão dieita, Anastasia. Deu certo. Venceram. O outro partido não conseguiu um centavo local para investimentos! Conspirações capitais dos árcades; cerceam e sufocam tudo! Tinha até candidato-laranja! Somos especialistas em tramóias e acordos de cavalheiros. É o jeitim minêro, aquele a comer pelas beiradas, sem jamais ir ao centro da coisa, pois seria parcialidade demais e o mineiro é amigo de todos. Engana-se o Brasil ao supor que o mineiro prefere a sombra do muro. Não! É no topo dele o seu sítio mais seguro! E falava o senador, e dizia da liberdade de imprensa em Minas, e que somos a tradição e que fazemos e acontecemos. E que Tiradentes isso e que Tancredo aquilo e que facilidade...! E que felicidade ... ! E quanta falsidade! Não viu que o rei estava nu?
Além de poder de retórica, é necessário ao contra-atacante a habilidade de conduzir essa retórica dentro de uma dada plataforma. Como desconstruí-lo? Um jovem roubou-lhe a palavra e o acusou ao vivo no Grande Teatro do Palácio das Artes. Questões ambientais seríssimas.
Já agora bem distante da juventude, outro dia no pograma Brasil das Gerais, o escritor Rubem Alves calou a moça Zampetti com essa interjeição pesadíssima e ao vivo: "Oh, minha filha, essa pergunta não pode mais ser feita!" A pegunta da boneca? "Ô gente, mas será que existe mesmo racismo no Brasil? Hein, Rubens?" Esfacelou-lhe a máscara de empírica. São tantos cínicos ao redor. Inquirem respostas já escrachadas ao ouvido público, só pra regurgitar uma dúvida que o mundo já digeriu. Aí, leitora, você se pergunta se é daí que emerge a nossa incapacidade de sermos um pouco mais dialógicos e um tanto menos agressivos. Não aprendemos a questionar o poder, porque esse acostumou-se a reprimir questionamentos verdadeiramente relativizantes. Marília e Aécim são tão amigos! Nunca poderia ela entrevistá-lo sem pisar em ovos! Nos Estados Unidos, chegam a ser constrangedoras as entrevistas de políticos, especialmente em períodos de eleição. São perguntas diretas e de extrema complexidade. Uma demanda de probidade linguística real para futuros gestores. Não que eles dêem conta do recado, mas a proposta editorial das mídias é não amaciar.  Evoluímos da pancadria senhorial nos vídeos em 70 e 80, para os marqueteiros idiotizantes de espectadores já muito emburrecidos em 2010. Ai, que me sinto tão mal com eles todos! É de fato sabido que do político brasileiro não se cobra a idoneidade civil que se cobra de qualquer outro funcionário público no execício de seu mandato. E se cobrarem, dá-lhe imunidade parlamentar! Vide Collors, Genuínos e Maluf absolvido ontem na Lei da Ficha Limpa. Então o século 19 volta e revolta mesmo, porque de fato nós próprios temos essa demanda servil aplicada nas metáforas da vida cotidiana. Somos assim também em outras esferas do nosso viver. Nos equilibramos entre o binarismo servir para comandar. E não admitimos ser relativizados. Os alunos querem pontos e trapaceam a professora, mesmo se não houver um carro prometido no natal. O cidadão quer as benemérides da democracia e chafurda com a polícia, com o ladrão, com o oficial corrupto da receita, com quem for...Como se a expectativa de se tornar senhora fizesse a escravidão ser suportável. E aí a idoneidade só vale pro outro. "Pra mim, não!" Só damos conta da expressão oral até o exercício da trapaça. Ali são inflexões de altíssima elaboração. Mas quando o assunto é a psique alterada pelo outro no espaço e no tempo, aí verifica-se a inabilidade de usar a palavra. Não damos mesmo conta da língua. Nos faltam palavras frequentemente. Pudera. No dia-a-dia  a prática do lirismo instantâneo é escassíssima. Não há silêncios. Só uma profusão de vazios autoritários ao redor!
Outro dia, a minha tia dizia estar chocada com a vizinha que corre o dia todo atrás do filho de 8 anos e a gritar-lhe o nome, "Charlim, Charlim", como uma louca. Aí eu lembrei-lhe que ela faz o mesmo com seu próprio filho e ela se irritou. No país do sol é quase sempre assim. Não se pode questionar o poder. Herança paternalizante que tudo controla e não tem de dar satisfações. É "o motorista que não quis dar seta", como revela o antropólogo Roberto da Mata em seu estudo sobre o comportamento agressivo do brasileiro no trânsito. Tem de fazer vista grossa, calar-se, fingir de mula. Será esse o significado do verbo emular. Emular-se? Essa necessidade comentada de refundação do PSDB perpassa o eixo que Aecim quer sustentar. Já viaja pelo Brasil se difundindo a tempos. Se lançando pra 2014, porque o tucanário paulistano anda mal das pernas, e parece que muito rejeitado pelo país, no seu controle. Por que certas bandas paulistanas não se dariam assim tão afavelmente ao moço? Como a Roda e o João Sayad e a Marília Gabriela e o seu cirquinho de amiguinhos? O que não falta em Minas é depoimento de jornalista castrado, reprimido, demitido, silenciado, e não raro, desaparecido. Questões políticas, policiais... Ser boneca é bem mais fácil. Minha inimicha Adriana que o diga. Liga o ar condicionado no máximo, no seu apartamentaço no alto do Buritis, onde o ar é realmente respirável, liga Sade bem alto e entorpecida de Dimple e fluoxetina, ela divaga como se estivesse num alpe suíço, daqueles que a gente só conhecia da embalagem de Magnum. Nem bala perdida do morro lhe cravaria a testa, que o ex-marido já blindou as paredes da choupana, que são de vidro multifocal. Assim a realidade lá fora vai mesmo virando outra. E só mesmo o pequerrucho de moral ainda não corrompida verá o rei nu? Há quem o veja, mas continua finigindo que a indumentária é suntuosíssima. Que saco. "Quando eu lhe encontrar vai ser pra enfiar a mão na sua cara, seu filho da puta", dizia outro dia o senador Collor a um jornalista que lhe quesstionava a integridade política. Qual? O que fará o expectador de posse da verdade? Pobre Minas. Mais minério para o mundo. Mais poder para as oligarquias industriais. Pobre natureza de Nova Lima, de Brumadinho. Para o povo, nada. Para os indianos, tudo. E os brancos do Brasil? Se avermelham ao passar o trem devagar, pela montanha, pelo vale? Não mesmo!
Ontem Marília entrevistava o José Júnio, de quem não é amiga, mas diz ser fã! Ali, a conversa foi menos doce. Vale muito a pena ver o programa, onde o entrevistado, angustiado e condecorado pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, impera e compartilha da mesma angústia que aponta no peito de Marília. Muita saudade do Paulo Markun. Au Revoir!